segunda-feira, 19 de maio de 2014

Viagem a Cantão (2). Blasco Ibañez

- O senhor não vá, tornam a dizer-me. A população de Cantão está furiosa contra os brancos e, de um momento para o outro, pode haver uma carnificina. Depois virá a intervenção armada das potências e também os castigos e as indemnizações, mas o que tiver sido morto na revolta, morto continuará.
Vou, apesar de tudo, a Cantão, e a viagem foi curta, fatigante, quase inútil. Há um caminho de ferro que parte de Hong-Kong, mas há mais de um ano que não funciona. A linha é inglesa, e, como o Presidente da República de Cantão ficou, repetidas vezes, com o material circulante, os directores julgaram conveniente suspender o serviço. Viajamos pelo rio em vapores cómodos á moda americana, com várias cobertas, que são uma espécie de hotéis flutuantes.
Passamos por entre as numerosas ilhas do estuário, seguindo uns canais dourados pelo sol nascente, com margens de verde escuro. Já dentro do rio, atravessamos um estreito que os descobridores portugueses chamaram Boca de Tigre. À ida, navegando contra a corrente, gastámos umas seis horas; o regresso, como era natural, levou menos tempo.
Apesar dos europeus se terem estabelecido há já três séculos em Cantão, ainda vivem à parte, ocupando o bairro denominado Shameen, separado do resto da povoação por um canal e que é o local onde antigamente estavam as feitorias. Hoje Shameen é uma cidade de tipo americano, com edifícios de muitos andares e vários hotéis, dos quais o Vitória é o melhor e mais concorrido. A quarta parte dos moradores deste Cantão branco são franceses e os restantes de língua inglesa.  O Christian College, estabelecimento importantíssimo mantido pelos missionários dos Estados Unidos, serve de Universidade a muitas centenas de mancebos da região, que aí recebem educação moderna. O resto de Cantão ocupa uma área enorme e está habitado por mais de dois milhões de chineses. As antigas muralhas, parecidas com as de Pequim, foram cortadas em vários pontos para se dar expansão à cidade. Além disso, parte dos habitantes, mais de cento e cinquenta mil, vivem no rio em sampanes.
A população flutuante de Cantão foi sempre objecto de curiosidade para os viajantes. Os bairros formam grupos, como os agrupamentos de edifícios nas cidades terrestres. As bordas tocam-se e os vizinhos passam indistintamente de uma coberta para outra. Canais estreitos separam estes bairros de embarcações, servindo de vielas pelas quais deslizam pequenas canoas. Há sampanes que são lojas em que se vende o indispensável para as necessidades daquela povoação anfíbia. Outros barcos velhíssimos servem de templos, e bonzos de vida vagabunda vivem misturados com os habitantes da Cantão fluvial, mendigos, contrabandistas e figurantes eternos de todas as revoltas.
Também flutuaram, durante séculos, junto das margens do rio Pérola os afamados barcos de flores. O leitor sabe, sem dúvida, para que servem essas casas aquáticas, ligadas à terra por uma ligeira ponte e com galerias cobertas de plantas trepadeiras e de vasos com flores. A tripulação, chamemos-lhe assim, é de mulheres com o rosto pintado e túnicas de cores primaveris. Esses barcos de flores, iluminados toda a noite, enchem as águas escuras de reflexos dourados e músicas alegres. Dos seus pátios sobem foguetes que cortam a escuridão celeste com golpes de luz sibilante e multicolor.
São restaurantes e palácios de amor fácil para as pessoas libertinas da região. O europeu que consiga entrar num barco de flores sai quase sempre espancado pelos fregueses. Mais de uma vez o visitante branco tem desaparecido no leito lodoso do rio.
Ainda há muitos barcos de flores, mas não chegamos e vê-los sequer por fora. Os viajantes que acabámos de chegar a Cantão só conhecemos as ruas semi-europeias do bairro de Shameen, entre o cais de desembarque e o hotel Vitória, mas atravessámos de ricsha.
Os chineses de Cantão parecem-nos menos educados, mais desordeiros e insolentes, que os de outras cidades. Ao verem-nos passar de gritam em tom agressivo; dirigem-se aos companheiros que puxam pelas nossas ricshas, e, embora não possa compreender o que dizem, quer-me parecer que adivinho as suas palavras pelos gestos com que as acompanham. Insultam com certeza os patrícios que servem de cavalos aos brancos. Nota-se na multidão uma excitação extraordinária, sem dúvida por causa dos cruzadores ancorados no rio. Há numerosos navios de guerra ingleses, franceses e norte-americanos, além de um cruzador italiano e outro português, todos com os canhões prontos a entrar em acção.
Depois do almoço no Hotel Vitória, quando os mais curiosos nos dispúnhamos a sair para as ruas dos bairros chineses, para visitarmos os seus afamados armazéns de porcelana, chegam-nos alguns emissários dos cônsules e participam-nos que seria razoável e prudente regressarmos imediatamente a Hong-Kong.  [...]
Partimos às primeiras horas da tarde, vendo novamente os bairros flutuantes da Cantão fluvial e, já na noite plena, chegámos aos nossos camarotes do Franconia.
No dia seguinte falo com os meus amigos de Hong-Kong em ir a Macau, e isto lhes causa mais espanto que a viagem a Cantão. Dizem todos o mesmo:
- Não vá, senhor. Os piratas, sempre que lhe convém, atacam o vapor correio. Ainda há poucos meses, levaram prisioneiros todos os que lá iam.


Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944.  2º vol., p. 174-177. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista  é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.

6 comentários:

  1. "La véritable Histoire, aujoud'hui comme hier, ne s'écrit pas chez les historiens mais chez les écrivains."

    Pierre Barbéris, Prélude à l'Utopie. Presses Universitaires de France, 1991, in nº 8.

    Um amigo meu, residente em Macau há mais de trinta anos, professor de história, diz com frequência, que Cantão é hoje outra cidade... De facto, não é esta cidade de Vicente Blasco que existe aqui... Foram deixadas algumas marcas arquitetónicas desses tempos, que são visitáveis, mas Guangzhou é uma cidade moderna com uma elevada qualidade de vida. Creio que quem quiser conhecer o que foi a China de há cinquenta anos, tem que ir a Macau.

    ResponderEliminar
  2. Como é belo, ao lar natal,
    Histórias ouvir contar
    Da grandeza oriental,
    Das peripécias do mar!
    Assistir, c’o pensamento,
    As cenas d’encantamento
    Que o poeta reproduz…
    Sem nunca as presenciar!
    É pintura que seduz,
    É quadro d’entusiasmar…
    Mas vinde olhá-lo de perto
    Que o desengano está certo. [...]
    Soltem-se velas ao vento,
    Suba o fumo do vapor,
    Dê-se o barco ao movimento
    Sofra-se áspero calor, –
    Que lá na remota China
    Nos aguarda extensa mina
    De pasmosa distracção…
    Oh que quadro multicolor
    Em Hong Kong, Macau, Cantão
    Perlas d’imenso valor…
    Embalai-vos forasteiros
    Nesses sonhos lisonjeiros!
    A triste realidade
    Tal esperança vai murchar
    Ao aspecto da verdade
    Desejareis recuar…
    Há [a]í marmóreas fachadas,
    Mil colunas elevadas
    De Hong Kong nas ruas, nas praças;
    Contemplareis no bazar
    Da indústria chinesa as graças
    Todo o seu luxo ostentar, –
    Mas vereis um trato odioso,
    Um comércio venenoso!…
    Bandos de homens europeus
    Que só pensam no anfião,
    Errantes, como judeus,
    De Xangai até Cantão,
    Chamando aos chins traidores –
    Eles!… os seus roubadores,
    Que vão levar-lhes a peçonha
    No estampido do canhão!…
    Espoliadores, sem vergonha,
    Desta mísera nação…
    Que exemplo de caridade!
    Que santa moralidade! [...]»

    Francisco Maria BORDALO, Um passeio de sete mil léguas, pp. 88-89


    ResponderEliminar
  3. Rio das Pérolas

    João Afonso

    Na orla de olhar salino
    o junco rasga o caminho
    no rio das pérolas um ponto sem fundo
    dá força à tranquila montanha

    No porto os tancares aguardam o mundo
    como se ocultassem segredos nas águas
    no rio das pérolas um ponto sem fundo
    dá força à montanha tranquila

    Cisma no deserto d´olhar peregrino
    um rapaz atrás da lua
    e a cor que a luz refugia

    Despida a noite a copa dos sonos
    É de barro a última palavra
    no rio das pérolas um ponto sem fundo
    dá força à tranquila montanha

    Nos sulcos do mar de prata
    Vai um barco viageiro
    Tem por destino a distância
    O vento que sopra é timoneiro

    Na trança a figura do mundo antigo
    saudades colinas do velho farol
    no rio das pérolas um ponto sem fundo
    dá força à tranquila montanha

    Chove nas vidraças, jogos inventados
    à beira dum mundo novo
    soluço das ondas que o farol vigia
    e a cor que a luz refugia

    Farol da guia ensina a noite
    à linda tancaneira a remar
    no rio das pérolas um ponto sem fundo
    dá força à tranquila montanha

    Vinte léguas o circundam
    de esperar pela maré cheia
    brilha o sol em hora e meia
    e um rapaz atrás da lua
    sentado num guarda chuva
    voa o peixe na banheira
    e a canção é das torneiras
    do coração das sereias

    ResponderEliminar
  4. Blasco refere-se a uma Cantão não de há cinquenta, mas de há quase cem anos. De qualquer forma, o observador informado não foi aqui além de umas quantas banalidades. Como ele próprio o admitiu, a visita a Cantão foi praticamente inútil.

    ResponderEliminar
  5. Em Dezembro de 1927, os comunistas em Cantão protagonizaram a heroica, ainda que prematura, Revolta de Cantão que levou à ocupação das instalações governamentais dessa cidade. Como foi registado pela história, e sem dúvida aplaudido pelos regimes coloniais em Hong Kong e Macau, este golpe de estado prematuro fez com que a ala direita do Kuomintang, sob o comando de Jiang Jieshi, assassinasse quase todos os que estavam envolvidos no acontecimento. O Cônsul Geral português em Cantão descrevia assim ao Governador de Macau, a 14 de Dezembro de 1927, os acontecimentos em questão:
    "Quando despontou o dia 11 deste mês, membros da ala extremista que desejavam implantar o sistema comunista no Sul da China, iniciaram um surpreendente ataque de surpresa, e tomaram o controle de toda a cidade; irromperam pelos edifícios públicos, os serviços telegráficos, bancos, etc, e causaram estragos; seguiram-se as pilhagens por todo o lado.
    a ordem já foi restabelecida por forças leais ao Governo; a vida na cidade voltou ao normal, embora exista insegurança causada pela persistente e cruel caça ao homem que os funcionários do governo empreenderam contra aqueles que suspeitam estar envolvidos no movimento revolucionário. São feitas buscas de dia e prisões na cidade, e as pessoas que estão sob suspeita, são sujeitas a execuções sumárias ao ar livre."
    Para fazer face a esta situação, as autoridades de Macau procuraram coordenar a sua política com as de Hong Kong. Esta não foi desencorajada pelos Britânicos. (...)

    Gunn, Geoffrey C., in Ao Encontro de Macau - Uma cidade-Estado portuguesa na periferia da China, 1557-1999.Edição: Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Fundação Macau. Julho de 1998. p. 154

    ResponderEliminar
  6. O texto de Blasco é, a meu ver, um texto excelente e muito elucidativo... é o seu olhar. Na China, há 50 anos passava-se fome... o desenvolvimento desta cidade tem poucos anos... talvez trinta. O metro tem três anos, os arranha-céus são muito recentes... as grandes salas de espetáculos também... Agora, para se vir de Hong Kong a Cantão há um comboio fabuloso de alta velocidade, mas é recente...
    Motivada pelo texto de Vicente Blasco fui hoje para a biblioteca à procura de diários e de relatos de viagens... e neles encontrei as mais diversificadas e contraditórias informações... depois cheguei a casa e procurei na net testemunhos de viajantes da Feira de Cantão... de 2012... quase todos brasileiros e acontece o mesmo... Como vês, graças a este blog, tenho procurado documentação. E os comentários são muito interessantes. Bem-hajas!

    ResponderEliminar