quarta-feira, 23 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez

Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
 - Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido. 

 Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.

1 comentário:

  1. A VIAGEM INICIÁTICA DE SALOMÉ

    Gabriel ficou e demorou-se. Logo nos primeiros contactos percebeu nela uma virtude essencial ou transcendente que o empolgou e comoveu até ao âmago. Abordaram-se sem formalidades nem pudores desnecessários, como se obedecessem a um comando: ela, porém, com timidez e antecipada nostalgia, vendo nele apenas o freguês que se demora um pouco e parte, mas este com um halo de simpatia e inquietação no olhar que a fez desejá-lo como nunca desejara homem nenhum; e ele, como se ignorasse até onde poderia segui-la ou precedê-la, e esforçando-se por julgá-la, com dó, a meretriz de acaso a quem se paga e se esquece; mas atraído por algo mais que o desejo, e liberto do enleio habitual na presença da fêmea mercenária e desconhecida.
    Ainda na fronteira da intimidade, quando ambos tacteavam nas trevas subjectivas procurando encontrar-se e conjugar-se, receosos de não saber acolher ou dar-se integralmente, ao vê-lo na plenitude da virilidade, pálido, magro e vigoroso, ela não pôde conter um grito de pasmo:
    - Como tu és forte! e como és bem feito! - disse, de joelhos, com uma exaltação quase dramática - Talhado como um atleta. Quem te vê vestido não diria...
    Esse brado espontâneo da mulher que ele supunha experiente, influiu talvez decisivamente no curso das suas relações: embora o ferisse de ciúme, o confronto com memórias profissionais deu-lhe uma ânsia jovial de superar o cortejo de rivais que lhe entrevia no passado. Empenhou-se então, sem inibições, na tarefa de a desejar, provocar e satisfazer melhor. Aquele encontro de circunstância, quando enfim se revelaram mutuamente, transfigurou-se num frenesim nupcial.
    Ela recebeu-o de olhos fechados e dentes apertados, pálida e fremente como a virgem que teme e suplica. Depois, no impulso com que se lhe abandonou, no sorvo ansioso e fluido da carne, nos suspiros e gemidos estrangulados, na surpresa e no êxtase maravilhado, em tudo revelou ter em si um tesouro intacto, uma frescura de mulher contida, paradoxalmente mal iniciada, o tumulto de uma natureza que irrompe ao contacto do novo ou inexperimentado, e que ela não quis ou não pôde disfarçar.

    José Rodrigues Miguéis, O MILAGRE SEGUNDO SALOMÉ, Lisboa, Ed. Estampa, 1982, pp. 558-559.

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