quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cinco semanas de balão (1). Edouard Riou

 1. Capa da 1ª edição da obra de Jules Verne Cinq Semaines en ballon, J. Hetzel et Compagnie, 1863. Ilustrações de Edouard Riou (1833-1900)
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2 - Le soir même, Kennedy, moitié inquiet, moitié exaspéré, prenait le chemin de fer à General Railway station, et le lendemain il arrivait à Londres.

3 - La cale du Resolute fut aménagée de manière à loger l’aérostat ; il y fut transporté avec les plus grandes précautions dans la journée du 18 février ; on l’emmagasina au fond du navire, de manière à prévenir tout accident ; la nacelle et ses accessoires, les ancres, les cordes, les vivres, les caisses à eau que l’on devait remplir à l’arrivée, tout fut arrimé sous les yeux de Fergusson.

4 - «Voyez-vous, mes amis, quand on a goûté de ce genre de locomotion, on ne peut plus s’en passer ; aussi, à notre prochaine expédition, au lieu d’aller de côté, nous irons droit devant nous en montant toujours.
- Bon ! dans la lune alors, dit un auditeur émerveillé.

5 – Les bagages des trois voyageurs furent transportés à la maison du consul. On se disposait à débarquer le ballon sur la plage de Zanzibar ; il y avait près du mât des signaux un emplacement favorable, auprès d’une énorme construction qui l’eut abrité des vents d’est. Cette grosse tour, semblable à un tonneau dressé sur sa base, et près duquel la tonne d’Heidelberg n’eut été qu’un simple baril, servait de fort, et sur sa plate-forme veillaient des Beloutchis armés de lances, sorte de garnisaires fainéants et braillards.

6 - Les ancres, les cordes, les instruments, les couvertures de voyage, la tente, les vivres, les armes, durent prendre dans la nacelle la place qui leur était assignée ; la provision d’eau fut faite à Zanzibar. Les deux cents livres de lest furent réparties dans cinquante sacs placés au fond de la nacelle, mais cependant à portée de la main.

7 - Au bout de deux heures, le Victoria, poussé avec une vitesse d’un peu plus de huit milles, gagna sensiblement la côte. Le docteur résolut de se rapprocher de terre ; il modéra la flamme du chalumeau, et bientôt le ballon descendit à 300 pieds du sol.

8 - Le Victoria passa près d’un village que, sur sa carte, le docteur reconnut être le Kaole. Toute la population rassemblée poussait des hurlements de colère et de crainte ; des flèches furent vainement dirigées contre ce monstre des airs, qui se balançait majestueusement au-dessus de toutes ces fureurs impuissantes.

9 - Le vent portait au sud, mais le docteur ne s’inquiéta pas de cette direction ; elle lui permettait au contraire de suivre la route tracée par les capitaines Burton et Speke.

10 - À midi, le docteur, en consultant sa carte, estima qu’il se trouvait au-dessus du pays d’Uzaramo La campagne se montrait hérissée de cocotiers, de papayers, de cotonniers, au-dessus desquels le Victoria paraissait se jouer. Joe trouvait cette végétation toute naturelle, du moment qu’il s’agissait de l’Afrique. Kennedy apercevait des lièvres et des cailles qui ne demandaient pas mieux que de recevoir un coup de fusil ; mais c’eût été de la poudre perdue, attendu l’impossibilité de ramasser le gibier.

11 - Le repas du soir fut préparé ; les voyageurs, excités par leur promenade aérienne, firent une large brèche à leurs provisions.
«Quel chemin avons-nous fait aujourd’hui ?» demanda Kennedy en avalant des morceaux inquiétants.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Posso seguir viagem a teu lado? Haruki Murakami

- Tenho um favor a pedir-te - diz.
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.

Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Viagens e viajantes nas Tentações de Santo Antão. Hieronimus Bosch





 Hieronimus Bosch, pormenores de As Tentações de Santo Antão, cerca de 1500.

domingo, 27 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (5). Gabriel Garcia Marquez


Na noite seguinte, com efeito, depois dele lhe ter ensinado a dançar as valsas de Viena sob o céu sideral das Caraíbas, ele teve de ir à casa de banho depois dela e quando voltou ao camarote encontrou-a nua na cama à espera dele. Então foi ela quem tomou a iniciativa e entregou-se-lhe sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de mar alto, e sem mais vestígios de cerimónia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez melhor durante o resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle entendiam-se como velhos amantes.
Ficaram dezasseis meses na Europa, com base em Paris e fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo, fizeram amor todos os dias e, mais de uma vez, nos domingos de Inverno, quando ficavam até à hora de almoço a brincar na cama. Ele era um homem de bons ímpetos e, alem disso, bem treinado, e ela não fora feita para perder com ninguém, de modo que tiveram de se conformar com a partilha do poder na cama.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 174.

sábado, 26 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (4). Gabriel Garcia Marquez


Então, tirou-lhe o lençol de cima e ela não só não se opôs como o atirou para longe do beliche com um movimento rápido dos pés, porque já não aguentava o calor. O seu corpo era ondulante e elástico, muito mais do que quando estava vestida, e com um cheiro próprio a animal do campo que permitia distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa em plena luz, uma onde de sangue a ferver subiu-lhe à cara e a única coisa de que se lembrou para o ocultar foi pendurar-se ao pescoço do seu homem e beijá-lo profundamente, até gastarem no beijo todo o ar que tinham para respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Tinha casado com ela porque gostava da sua altivez, da sua seriedade, da sua força, e também por um grão de vaidade, mas, enquanto ela o beijava pela primeira vez, teve a certeza de que não haveria nenhum obstáculo para que inventassem um grande amor. Não falaram disso nessa primeira noite em que falaram de tudo até amanhecer, nem haveriam de falar disso nunca. Mas, com o decorrer do tempo, nenhum dos dois se enganou.
Ao amanhecer, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não havia de ser por muito tempo.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 173.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (3). Gabriel Garcia Marquez


Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança, e voltou a pegar-lhe na mão grande e fofa e cobriu-a de beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo áspero, os longos dedos clarividentes, as unhas diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que a sua mão chegou até ao peito dele e tropeçou com alguma coisa que não conseguiu decifrar. Ele disse-lhe: “É um escapulario”. Ela acariciou-lhe os pêlos do peito e depois agarrou no matagal todo com os cinco dedos para arrancar pela raiz. “Com mais força”, disse ele. Ela tentou até onde sabia que não o magoava e depois foi a sua mão que procurou a mão dele perdida nas trevas. Mas ele não a deixou entrelaçar-lhe os dedos e agarrou-lhe a mão pelo pulso e foi-lha conduzindo ao longo do corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, até mesmo ao contrario do que ela teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou inerte onde ele a pôs, e, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem, apertou os dentes com medo de rir da sua própria loucura, e começou a identificar pelo tacto o inimigo encabritado, a conhecer o seu tamanho, a força do seu braço, a extensão das suas asas, assustada com a sua determinação mas compadecida da sua solidão, fazendo-o seu com uma curiosidade minuciosa que alguém menos sabedor que o seu marido teria confundido com carícias. Ele apelou para as suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até que ela o soltou com uma graça infantil como se o tivesse atirado para o lixo.
- Nunca consegui perceber como é esse aparelho – disse.
Então ele explicou-lhe a sério com o seu método magistral, enquanto lhe conduzia a mão pelos sítios que ia mencionando e ela deixava-o levar-lha com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu, num momento propício, que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela deteve-lhe o braço dizendo: “Vejo melhor com as mãos”. Na verdade queria acender a luz. Mas queria fazê-lo ela, sem que ninguém lho mandasse, e assim foi. Ele viu-a então em posição fetal, alem de estar coberta pelo lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a segurar outra vez sem afectações o animal da sua curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: “É tão feio, tão feio que ainda é mais feio que o das mulheres”. Ele concordou e assinalou outros inconvenientes mais graves do que a fealdade. Disse: “É como o filho mais velho: passa-se a vida a trabalhar para ele, a sacrificar tudo por ele, e na hora da verdade acaba por fazer o que lhe der na real gana”. Ela continuou a examiná-lo, perguntando para que servia isto e para que servia aquilo e quando achou que estava bem informada, tomou-lhe o peso com as duas mãos, para concluir que nem pelo peso valia a pena e deixou-o cair com uma careta de menosprezo.
- Além do mais, acho que lhe sobram demasiadas coisas – disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original para a sua tese de licenciatura tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis para outras idades do género humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e, por essa razão, menos vulnerável. Concluiu: “É uma coisa que só pode ser feita por Deus, é claro, mas de qualquer maneira seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos”. Ela riu-se divertida, de um modo tão natural que ele aproveitou a ocasião para a abraçar e deu-lhe o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu-lhe e ele continuou a dar-lhe beijos muito suaves nas faces, no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e acariciou-lhe o púbis redondo e ralo: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado de alerta para o caso de ele avançar mais um passo.
- Não vamos continuar com a aula de medicina – disse.
- Não – disse ele. – Esta vai ser de amor.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 171-173.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (2). Gabriel Garcia Marquez


O doutor Juvenal Urbino sentiu-a deslizar junto a ele como um bichinho assustado, tentando afastar-se tanto quanto possível, num beliche onde era difícil estarem dois sem se tocarem. Pegou-lhe na mão, fria e crispada de terror, entrelaçou-lhe os dedos, e quase como num sussurro começou a contar-lhe as suas recordações de outras viagens por mar. Ela estava novamente tensa, porque, ao voltar à cama, deu conta que ele se despira completamente enquanto ela estava na casa de banho, e isto reavivou-lhe o pânico do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino continuou a falar muito devagar, enquanto se ia apoderando milímetro a milímetro da confiança do seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor de Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, nos transportes públicos, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do Verão e que faziam amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava na sombra, acariciou-lhe a curva do colo com as pontas dos dedos, acariciou-lhe a penugem sedosa dos braços, o ventre evasivo, e quando sentiu que a tensão tinha cedido fez uma primeira tentativa para lhe levantar a camisa de dormir, mas ela impediu-o com um impulso típico do seu carácter. Disse: “Sei fazer isso sozinha”. Tirou-a, com efeito, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino teria pensado que já não estava ali se não fosse o calor solarengo do seu corpo nas trevas.
Passado um bocado voltou a pegar-lhe na mão e então sentiu-a morna e solta, mas ainda húmida de um orvalho terno. Ficaram outro bocado calados e imóveis, ele à espreita da ocasião para o passo seguinte, e ela à espera dele sem saber donde, enquanto a escuridão se ia dilatando com a sua respiração cada vez mais intensa. Ele largou-a então e deu um salto no vazio: humedeceu com a língua a ponta do dedo anelar, tocou-lhe ao de leve no mamilo desprevenido e ela sentiu uma descarga de morte como se lhe tivessem tocado num nervo vivo. Ficou contente por estar às escuras para que ele não visse o rubor intenso que a estremeceu até às raízes do crânio. “Calma”, disse-lhe ele, muito sereno. “Não te esqueças que os conheço”. Sentiu-a sorrir e a sua voz foi doce e nova nas trevas.
- Lembro-me muito bem – disse – e ainda não me passou a raiva.
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança [...]

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 170-171.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez

Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
 - Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido. 

 Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.

terça-feira, 22 de abril de 2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A passagem do Styx. Joachim Patinir

Joachim Patinir (1485-1524), Traversée du monde souterrain [entre 1515 e 1524],
(Musée du Prado, Madrid).

Esta pintura de Patinir destaca por su originalidad y su composición, distinta a la habitual, formada por planos paralelos escalonados. Favorecido por el formato apaisado de la tabla, el autor divide verticalmente el espacio en tres zonas, una a cada lado del ancho río, en el que Caronte navega en su barca con un alma.Tomando como fuente de inspiración las representaciones anteriores del Paraíso o del Purgatorio del Bosco, decisivas en su proceso y creación final,  Patinir reúne en una única composición imágenes bíblicas junto a otras del mundo grecorromano. El ángel situado en un promontorio, los otros dos, no lejos de éste, que acompañan a las almas, y algunos más, junto con otras almas minúsculas, al fondo, permiten conocer a la izquierda el Paraíso cristiano. Por el contrario, el Cancerbero parece identificar el Infierno representado a la derecha con Hades, asociándolo con la mitología griega, lo mismo que Caronte con su barca. Patinir sitúa la escena en el momento en que Caronte ha llegado al lugar en que se abre un canal a cada lado de la Estigia, momento de la decisión final, cuando el alma a la que conduce tiene que optar por uno de los dos caminos. Debe conocer la diferencia entre el camino difícil, señalado por el ángel desde el promontorio, que lleva a la salvación, al Paraíso, y el fácil, con prados y árboles frutales a la orilla, que se estrecha al pasar la curvatura oculta por los árboles y conduce directamente a la condenación, al Infierno. El modo en que Patinir representa el alma, de estricto perfil, con el rostro y el cuerpo girado en dirección al camino fácil, que lleva a la perdición, confirma que ya ha hecho su elección y que esa es la vía que va a seguir.A fines de la Edad Media existía toda una serie de metáforas para expresar esta idea, tanto bíblica como clásica. De todas ellas, Patinir parece haberse inspirado en el Evangelio de San Mateo. No hay duda de que refleja en esta obra el pesimismo de una época tan turbulenta como la que le tocó vivir, en plena Reforma protestante.  Al llevar a cabo esta obra, Patinir la convierte en unmemento mori, en un recordatorio, a quien la contemple, para que quede avisado de que es preciso prepararse para este momento e, imitando a Cristo, seguir el camino difícil, sin hacer caso de los falsos paraísos y tentaciones engañosas (Texto extractado de Silva, P. en:Patinir, Museo Nacional del Prado, 2007, pp. 150-163).

domingo, 20 de abril de 2014

A viagem de Lorenzo Daza. Gabriel Garcia Marquez


“De modo que lhe vim fazer uma súplica”, disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto na aguardente de anis, deu-lhe uma chupadela sem fumo e concluiu com a voz embargada:
- Afaste-se do nosso caminho.
Florentino Ariza tinha-o escutado entre goles de aguardente de anis, e tão absorto estava na revelação do passado de Fermina Daza [filha de Lorenzo Daza] que nem sequer se perguntou que diria quando tivesse que falar. Mas, chegado o momento, compenetrou-se de que fosse o que fosse que dissesse comprometeria o seu destino.
- O senhor falou com ela? – perguntou.
- Isso não lhe diz respeito – respondeu Lorenzo Daza.
- Pergunto-lho porque me parece que quem tem de decidir é ela.
- Nada disso – disse Lorenzo Daza. – Isto é um assunto de homens e resolve-se entre homens.
O tom tinha-se tornado ameaçador e um cliente de uma mesa próxima voltou-se para os observar. Florentino Ariza falou com a voz mais ténue mas com a determinação mais imperiosa de que foi capaz:
- De todos os modos – disse – não lhe posso dar qualquer resposta sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza encostou-se para trás na cadeira com as pálpebras avermelhadas e húmidas, e o olho esquerdo girou na sua órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
- Não me obrigue a dar-lhe um tiro – disse.
Florentino Ariza sentiu que as entranhas se lhe enchiam de uma espuma fria. Mas a voz não lhe tremeu porque também ele se sentiu iluminado pelo Espírito Santo-
- Dê-mo – disse, com a mão sobre o peito. – Não há maior glória que morrer de amor.
Loren Daza teve de olhá-lo de lado, como os papagaios, para o encontrar com o olho torcido. Não pronunciou as três palavras, pois mais pareceu que as cuspiu sílaba a sílaba:
- Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana levou a filha para a viagem do esquecimento. Não lhe dando qualquer explicação, irrompeu pelo seu quarto com os bigodes sujos pela ira misturada com tabaco mastigado e ordenou-lhe que fizesse as malas. Ela perguntou-lhe onde iam e ele respondeu: “Para a morte”. Assustada com aquela resposta que se parecia de mais com a verdade, decidiu fazer-lhe frente com a mesma coragem dos dias anteriores, mas ele puxou do cinto com fivela de cobre maciço e deu uma chicotada na mesa que ressoou por toda a casa como o disparo de uma espingarda. Fermina Daza conhecia muito bem até onde podia ir a sua própria força e quando a devia utilizar, de modo que fez uma mala com duas esteiras e uma rede, e meteu em dois grandes baús todas as suas roupas, com a certeza de que esta era ma viagem sem regresso. Antes de se vestir, fechou-se na casa de banho e conseguiu escrever a Florentino Ariza uma breve carta de despedida num folha arrancada do rolo de papel higiénico. Depois cortou pela nuca uma trança completa com a tesoura de podar, enrolou-a dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro e enviou-o juntamente com a carta.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 93-94.

sábado, 19 de abril de 2014

Depois de matar a noite nas tascas da capital, o vagabundo... Camilo José Cela

Às escuras sob a quente lona, por entre cadeiras de baloiço, aparadores, camas desmontadas e gaiolas vazias, aos saltos e safanões pelos caminhos e despenhadeiros de Castela, o vagabundo - que nunca pôs o nariz de fora a não ser para fumar um ou outro cigarro, não fosse o diabo fazer com que ele queimasse os móveis de Dom Frederico - viu-se em Madrid, ao cair da tarde, fresco e ligeiro como se não tivesse caminhado nem uma légua, coisa que, vendo bem, também não era mentira.
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto  - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.

Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sherlock Holmes no Porto. Donan Coyle

Havia tempo já que a saúde de Sherlock Holmes não parecia satisfatória. As sumidades médicas inglesas a quem o apresentei eram, como eu, de opinião que só uma prolongada estação no Sul da Europa podia restabelecê-lo. Aconselharam-lhe Nice, Cannes, as vilas da Riviera italiana. Mas Sherlock Holmes não se resolvia a abandonar Londres. Passava dias inteiros estendido sobre uma preguiçadeira de verga na nossa casa de Baker-Street, envolto em nuvens de fumo que continuamente se escapavam do seu cachimbo de cerejeira. Negava-se quando vinham procurá-lo, e já três vezes se recusara a auxiliar as diligencias do nosso conhecido inspector Lestrade, da Scotland-Yard. Durante seis meses uma só vez condescendeu em sair da sua inacção. Foi no caso do assassinato de Hyde Park, em que Homes apresentou o verdadeiro culpado quando o tribunal ia pronunciar a condenação de um inocente.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a  surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.

Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.

O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Franck Michel

A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Vamos em direção a um fim do mundo onde nos encontramos com o mundo. Desta imersão, ingerência ou convite nasce o principio de um possível encontro cultural e não apenas turístico. Deste modo, da identidade ao turismo a distancia é muitas vezes mais curta do que se pensa. De um lado, deparamo-nos com um regresso ao passado e à natureza com o objectivo de reforçar ou até de fixar um identidade em risco de perder reconhecimento em face do turbilhão da mundialização; do outro lado, está o sucesso da conservação e da preservação do legado ao qual se tenta insuflar um novo destino, turístico e mercantil, para que seja melhor (re)conhecido através da sua prévia "rentabilização". É um pouco desta maneira que todas as culturas se vêem puxadas para cima pelas suas raízes, depois realojadas num contexto que, afinal de contas, se assemelha a todos os outros, num espaço comum.

Franck Michel, Voyages Pluriels. Échanges et Mélanges. Paris, Éditions Livres du Monde, 2011, p. 105-106

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, dum cais. Fernando Pessoa

[...]
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?
Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visível como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,
Insensivelmente evocado,
Nós os homens construímos
Os nossos cais nos nossos portos,
Os nossos cais de pedra actual sobre água verdadeira,
Que depois de construídos se anunciam de repente
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,
A certos momentos nossos de sentimento-raiz
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.
Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o ònico.
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha,
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria.
Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados
Em divino êxtase revelador
Ës horas cor de silêncios e angústias
Não é ponte entre qualquer cais e O Cais!
Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
— O medo ancestral de se afastar e partir,
o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo —
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa,
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...
[...]

Fernando Pessoa, Ode Marítima
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publicação in Orpheu n. 2. Lisboa, Abril-Junho 1915.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sempre fui um mau turista. Vitorino Nemésio

Intitulei-os [o autor refere-se a textos poéticos produzidos por si quando, em meados dos anos 30  residiu em Bruxelas e exerceu a docência na Bélgica] Expresso Bruges-Coimbra, porque me saíram de uma rápida viagem, no retorno, a Knock-le-Zut, a pretexto de de um congresso de poetas, e incluí-os no meu volume de versos Nem Toda a Noite a Vida. Bruges-Coimbra - por atar dois nomes de cidades europeias lendárias: a nossa, que vivi tão fundo; a belga, que senti passo a passo e ainda assim muitos anos depois da navette que naturalmente fazia, como professor da Universidade de Bruxelas, entre a capital e Antuérpia.
Mas sempre fui mau turista, deixando perder as ocasiões, e, com eles as proximidades. Talvez até porque o viajar concreto, no poeta, tende ao reconhecimento ou à recognição de itinerários prévios, de viagens imaginárias.

Vitorino Nemésio, "Evocação", in Panorama, n. 16/IV série, Dezembro de 1966.
Publicado também Em Criticas Sobre Vitorino Nemésio, coord. de António C. Lucas. Lisboa, Livraria Bertrand, 1974, p. 62-63.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Maria Helena Vieira da Silva

Carta de Maria Helena Vieira da Silva a Arpad Szenes, enviada de Nova Iorque para Paris, datada de 10 de Outubro de 1961.

Nova Iorque, 10 X 61
Meu drága Arpad
Esta carta é para deitar no lixo sem ser lida. Mas, se por azar eu não chegar ao meu destino, tu vais lê-la e este é o meu testamento. Sou a única responsável por ir de avião. Peço-te, não culpes ninguém! Era-me impossível ir de barco, já não podia suportar estar mais tempo longe de ti. Acho que não me vai acontecer nada. Vejo toda esta gente que vai e volta, porque é que eu iria morrer? Eu. Mas se, como já te disse, pela minha imprudência, e pela minha impaciência, eu não chegar ao destino, ficas a saber que o meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Mas eu acredito que não te vou deixar e é para te encontrar mais depressa, meu único amor, que vou de avião.
Mas se esta minha certeza me enganar, sê religioso e bom e reencontrar-nos-emos sempre.
Bicho

Nos automóveis, a cada instante, arrisco tanto como de avião.
Este é o meu raciocínio, gostava que estas palavras pudessem atravessar o Atlântico antes da minha chegada, depois de amanhã, para te sossegarem.
Não culpes ninguém. Não te zangues com ninguém, sou eu que tenho a certeza de chegar.
Amo o avião, o ar, mas tenho remorsos de gostar deles por gostar de ti. Daqui a algumas horas estarei no ar.
Beijo-te.

Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, Correspondência:1932-1961. Lisboa. INCM, 2013, p. 220.
Maria et Arpad, c. 1930

domingo, 13 de abril de 2014

São grandiosas todas as vistas do Porto que dão sobre o rio Douro. Daniel Martins de Moura Guimarães

Porto (89 321 h.)

É a segunda cidade do reino e a sua população muito comercial e activa. É lindo e pitoresco o aspecto do Porto, principalmente visto de Vila Nova de Gaia, como são grandiosas todas as vistas que dão sobre o rio Douro. É curioso ver o movimento constante nos principais pontos de comércio, como alfândega, Ribeira, ruas de S. João, Ingleses, Ferreira Borges, Belomonte, Flores, S.to António, Clérigos e Almada, e largos de S. Domingos, de S. Bento, dos Loios e de D. Pedro; ao mesmo tempo que são lindas e sossegadas as extensas ruas da Boavista, dos Bragas, da Rainha, do Costa Cabral, de S.ta Catarina, da Alegria, da Duquesa de Bragança, Formosa, de Fernandes Tomás, etc.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 41-42.

Lisboa e Nápoles são as cidades mais bem situadas que visitei. Daniel Martins de Moura Guimarães

Lisboa (260 000 habitantes)

Começo por Lisboa. Devo-lhe a preferencia por ser a capital da minha pátria e ter sido o ponto de partida das minhas viagens na Europa.
Dos geógrafos e historiadores Urcullu, Cesar Fanin, Balbi, Bouillet e Ferdinand Denys, o primeiro dá-lhe 265 000 habitantes e todos os outros 260 000. O último fazendo menção do nosso recenseamento de 1836, que assinava a Lisboa 220 000 almas, não o admite. No que porém ninguém concordará é nos 169 823 habitantes do recenseamento de 1864. Explica-se no entretanto esta diferença, notando que os autores, a quem aludo, se referem à população desde Xabregas até Belém, e o recenseamento simplesmente à de intra muros.
Lisboa e Nápoles são as cidades mais bem situadas que visitei. Para bem se apreciar a beleza da primeira, não basta olhá-la de muitos e magníficos pontos de vista que tem, como Penha de França, castelo de S. Jorge, S. Pedro de Alcântara, etc. É preciso entrar a barra num lindo dia de Abril a Junho, quando as colinas marginais estão vestidas de verdura, entre a qual parecem esvoaçar as alvejantes velas duma multidão de moinhos, e ver este espectáculo ainda realçado por lindas habitações campestres, até que, onde o Tejo é mais majestoso, se ergue a cidade em anfiteatro sobre vários outeiros, que ostentam como em exposição os seus templos e palácios. Em frente da cidade é que as águas do rio, misturando-se ainda com as do Oceano, formam um soberbo golfo que, não excedendo a meia légua de largura entre Belém e a Praça do Comércio, é de duas léguas entre a alfândega e o Barreiro, e de três léguas entre Braço de Prata, arrabalde a Leste, e a vila de Aldeia Galega. Quem, como disse, entrar a barra numa bela manhã daquela estação e se não electrizar à vista de tal conjunto, ou é em demasia fleumático ou sofre de maneira que está insensível a todas as comoções.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 7-8.

sábado, 12 de abril de 2014

Guia do amador de Belas Artes. Daniel Martins de Moura Guimarães

Sem fins lucrativos, e sem ideias de vanglória, ofereço hoje ao publico o presente livro.
Antes porém que o leitor o analise, seja-me lícito expor as causas que o motivaram.
Querendo viajar pela Europa em 1865, procurei um guia que me desse notícia do que pelos diversos países existe de mais notável. Em português não encontrei nenhum completo.
O único existente, o Luso-Brasileiro, era já antigo, e por essa razão insuficiente, visto que uma grande parte das coisas tinha sofrido a natural alteração do tempo, principalmente no tocante a estradas, colecções, hotéis, etc.
O melhor que encontrei foi o de Mr. Baedecker, escrito em francês, mas com o grande inconveniente de não descrever a nossa península, sendo além disso demasiado extenso, pois ocupam oito volumes os guias para a Europa central. Tive mais tarde para suprir aquela deficiência, de comprar outro, o de Mr. Laringe, vindo assim a achar-me com o pecúlio de informações que desejava, mas derramadas em quatro mil e tantas páginas. Em 1867, querendo fazer uma terceira viagem, achei-me embaraçado com tantos guias; fiz um resumo do que havia de mais notável nos países que havia percorrido, levando simplesmente os volumes relativos aos que ia ver de novo.
Mas quantas viagens se aumentam depois de estar-se em marcha?
Quantas pessoas não têm, antes de empreendê-las, o tempo ou a paciência precisa para tantas notas?
E a quantas, enfim, deixa de ser familiar a língua francesa?
Estas considerações fizeram-me conceber a esperança de que, mesmo sem habilitações, poderia contribuir para popularizar a nossa maior ou menos riqueza em belas artes, quase virgens de explorações estrangeiras; publicando um guia ao qual adicionasse opiniões competentes e sinaleiras àquele respeito, e que, pela sua utilidadeno que é descritivo, se tornasse, a bem dizer, um meio de forçar o viajante leigo a adquirir instruções sobre a pintura, minha mania ou paixão dominante.
Divdi portanto o meu trabalho em duas partes, entrando na primeira o que é simplesmente descritivo, para o que me auxiliei dos guias já mencionados, e com respeito a Portugal de alguns esclarecimentos do Sr. Vilhena Barbosa e de outros cavalheiros, que estou certo não mo levarão a mal.
Na segunda parte, exclusivamente artística, dividi a pintura por escolas, parecendo-me assim estabelecer melhor o paralelo do que temos produxzido neste ramo e mais facilmente avaliar a importância relativa do lugar que nele ocupamos.
Para isso, auxiliei-me de diversos escritores, adoptando em geral a opinião de Mr. Louis Viardot, e com relação a Portugal a de Mr. Raczynski, cujas obras de ambos não ocupam menos de outras quatro mil e tantas páginas.
Creio pois deste modo ter explicado o meu fim e merecer desculpa de ter denominado Guia do Amador de Belas Artes um tão insignificante trabalho, levando-se-me em conta que o apresento como um resumo das obras que mencionei, que entra aqui muito amor pelo que é nosso, e que o líquido do que produzir será em benefício do Asilo de Mendicidade do Porto, minha pátria.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 3-5.

Notas:
Daniel Martins de Moura Guimarães, natural de Gondomar, partiu para o Brasil, em 1844. Tinha dezassete anos. Regressou ao Porto, em 1867, senhor de uma apreciável fortuna. Tornou-se negociante de arte e investiu na indústria e nos serviços. Viajou pela América, Europa e Oriente. Fundou, em 1894, o Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. Entre a sua descendência, refira-se o seu trineto Pedro Abrunhosa.


Louis Viardot publicou entre 1852 e 1855 Les Musées d'Europe. Guide et Memento de l'artiste et du voyageur, 5 volumes (Itália, Espanha; Alemanha; Inglaterra, Bélgica, Holanda e Rússia; França)

Atanazy Raczynski publicou em 1846, em Paris, Les arts en Portugal : lettres adressées a la société artistique et scientifique de Berlin et accompagnées de documents

Vilhena Barbosa publicou em 1860 As cidades e vilas da monarquia portuguesa que têm brasão de armas.

Karl Baedeker, alemão, fundou em 1827 uma empresa editora de livros de viagens. A editora teve continuidade, após a mote de Karl, pelas mãos dos seus filhos. Os livros que publicou foram popularizados com o nome da própria editora.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Errante aqui e ali. William Shakespeare

CX
Ai de mim, é verdade, errante aqui e ali
truão me viram todos, vendi ao desbarato
o que mais caro tinha, meu íntimo despi,
de novas afeições fiz velho desacato.
E ainda mais verdade é que olhei a virtude
alheado e indif'rente: mas ao coração deram
tais desvios ao fim uma outra juventude
e que me és todo o amor ensaios pior's disseram.
Toma o que não acaba. Fiz o que fiz. Prometo:
Não mais hei-de aguçar este meu apetite
de nova provação dar ao antigo afecto,
Deus deste amor que quero agora me limite-
Pois dá-me então guarida, ó meu céu mais perfeito,
dentro desse teu puro e desvelado peito.

Vasco Graça Moura, Dezassete Sonetos de Shakespeare, com um desenho de José Rodrigues. Porto, O Oiro do Dia, 1977, p. 9.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis. Maria do Rosário Pedreira

Começara, pois, por tirar a fronha a uma das almofadas que durante a noite secretamente escorregara para fora da cama. Assim, ir-se-ia para sempre a imagem de Alberto, a lembrança do seu corpo apressado junto ao meu, as manhãs vazias e silenciosas que a sua ausência começava a tecer antes mesmo de abandonar a casa, de sair da cama onde cada um de nós dormira com duas almofadas, ele porque assim se acostumara e eu apenas para o poder olhar, durante a noite, enquanto não conseguisse adormecer. Porém, depois da almofada, haveria muito mais a fazer. Deitar fora os remédios que não fora eu a tomar e, com eles, duas escovas de dentes que não me pertenciam, uma bisnaga velha de creme para a barba, um par de meias pretas de algodão, um pente de metal, uma caneta verde, um frasco de perfume quase no fim, uma agenda com três anos, as fotocópias de um original de um livre de Filipe que já tinha sido publicado, um convite para o lançamento, os recortes de jornal com as críticas, vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis, guardanapos de papel escritos pela mão de Javier à mesa dos restaurantes, vamos sair daqui agora e fazer amor?, a terceira semana de Janeiro de alguns anos antes recortada de um calendário, um ramo de alecrim seco arrancado no cabo Espichel, um postal de Finisterra, outro da Irlanda, um com o rosto de Eliot quando jovem e ainda outro com o de Lenine, muitos iguais, a preto e branco, da cancela de um jardim em França, uma planta da cidade do Porto, fotografias de viagens, uma bala, uma nota de cem escudos rasgada ao meio, uma carteira de fósforos que dizia às vezes é muito difícil olhar para ti, um folheto turístico do Faial, uma marca de livro com um trevo, um pé de azálias que não pegara e ainda assim ficara enterrado no vaso, uma caixa de cigarrilhas incompleta, a embalagem cilíndrica verde e dourada de uma garrafa de malte comprada no aeroporto de Dublin, vários livros que nunca descobriria exactamente do quem eram, um isqueiro que já não acendia, um panfletos que me tinham dado na estação de Euston havia muito tempo, papel de carta de todos os lugares por onde passara, um cartão de sócio de um clube de vinhos, o programa de um espectáculo de música galesa, um autocolante do festival de cinema se Tróia, uma dúzia de revistas literárias, uma madeixa loura do cabelo do meu amante, um livro de versos dedicados a uma outra mulher, mais versos nunca publicados, dezenas deles, mais retratos que ainda cheiravam bem como os lugares onde tinham sido tirados, e o meu nome espalhado pelos muitos envelopes das cartas que um dia dividira por vários montes, como se também o meu amor se tivesse sempre dividido por esses homens que agora eu queria esquecer, e esqueceria, para sempre.

Maria do Rosário Pedreira, Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu, Lisboa, Gradiva, 1993, p. 149-150.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Cidade imaginaria (4)

O centro


Entrou no café, quase deserto àquela hora, em busca do esquivo Franz Kafka, mas foi o som de um telemóvel que lhe prendeu a atenção. - Sim, estou bem. Já fiz o reconhecimento do trajecto. Era inevitável seguir a conversa em português. - António - apresentou-se ele. Desculpe, não pude deixar de ouvir. Ela sorriu: - Oh, fui apanhada! Fez bem em apresentar-se. Amália. Quer sentar-se à minha mesa?
Sem reservas, ela contou-lhe o motivo da vinda a Praga. Participava em corridas de meia maratona em cidades europeias. Lisboa, Paris, Barcelona, Dublin, Pisa, Berlim... Todos os anos, escolhia uma e marcava as férias de acordo com a data das provas. Fazia uma preparação cuidada de modo a não ter problemas em concluir o percurso. Gostava da sensação de correr entre gente de tantas paragens, idades e condições sociais. Adorava ver os centros históricos das cidades como palco por momentos exclusivo de gente que andava a pé, as ruas cortadas ao trânsito, as praças com gente a ver e a incitar, ou, simplesmente a sorrir. Estavam a 7 Maio, a corrida teria lugar dois dias depois, Dia da Europa. - Tenho de confessar que é uma forma original de coleccionar cidades - disse ele, surpreendido.
Combinaram novo encontro nesse dia, ao fim da tarde na Praça da Cidade. Sentaram-se numa esplanada, de frente para a torre do relógio medieval. Pediram cerveja, uma salada de tomate com mozzarella e pesto.
Agora era ela quem inquiria o motivo que o trouxera à cidade. - Queria experimentar a sensação de estar no centro - respondeu ele. Crescera numa pequena cidade, sonhando com Lisboa, o centro de Portugal. Frequentara a Universidade, no tempo da guerra colonial, sonhando com Paris, o centro da liberdade. Tornara-se professor, sonhando com Florença, o centro da civilização. Deambulara pelo mundo sonhando com Praga, o centro da Europa.
- Vais assistir à corrida amanhã? - perguntou ela. - Sim, mas vais ter de me descobrir. - Fá-lo-ei - respondeu ela.
Encetara o último terço da corrida, pela rua Resslova, na margem do Vitava, quando o avistou. Empunhava um cartaz, mas não conseguiu perceber o que dizia. Reconheceu o prédio da esquina, a "Casa Dançante". Sabia que tinha sido construído sob o patrocínio de Vacklav Havel. "Fred e Ginger", fora assim denominado. - Oh, pensou, ele encontrou o seu "centro", a utopia que preencheu o quarteirão bombardeado em 1945. Um símbolo de fragilidade e emoção.

[Texto publicado na edição do semanário Região de Leiria. de 4 de Abril de 2014]



terça-feira, 8 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (6)


6. Regresso a Lisboa
Antes de sair de Castelo Branco, resolvi despedir-me do Reitor. Mau grado a frieza quase hostil com que me recebera e o incidente gerado com a tentativa de forçar todo o corpo docente a comparecer perante o Presidente da República, as nossas relações tinham-se amenizado no final do ano. Foi uma despedida cordial, em que trocámos até algumas graças. Quando me preparava para sair do seu gabinete, interpelou-me: - tem perspectivas de colocação em Lisboa? -  Não estou certo, respondi. - Terá sempre aqui um lugar, se as coisas por qualquer motivo não lhe correrem bem, disse então. Fiquei surpreendido e agradado.
Mas eu queria muito voltar a Lisboa. A distancia a que ficava de Castelo Branco era terrível. Saindo desta cidade no Sábado por volta das 12h30 (tinha aulas ao Sábado de manhã), chegava a Santa Apolónia ao fim da tarde. Regressava no dia seguinte, Domingo, saindo de Santa Apolónia por volta das 21 e chegando a Castelo Branco já de madrugada. Duas viagens longas e incómodas, e de duração sempre imprevisível, que deixavam entre si pouco mais de 24 horas. Tempo insuficiente para manter relacionamentos intelectuais e afectivos, viver a cidade de que gostava, ir às livrarias e aos cafés, ao teatro, ao cinema, a exposições, deambular pelas ruas. Tinha ainda que concluir o 4º ano do Curso, sem o que não me poderia inscrever no seminário que dava acesso à elaboração da tese e conclusão da licenciatura, daí resultando mais constrangimento aos meus tempos livres.
Com a criação dos bacharelatos decidida em 1968 pelo Ministro José Hermano Saraiva, todos os que, como, eu tinham concluído o 2º ano do Curso, ficaram na insólita situação de terem já efectuado cadeiras que passaram a pertencer aos planos de estudos do 4º ano. Assim sendo, eu pudera inscrever-me em 1970/1971 em salvo erro apenas duas cadeiras, Numismática e Paleografia e Diplomática, as quais frequentei no regime de voluntário, uma vez que não podia assistir às aulas. Devo dizer que a inscrição era fundamental também por um motivo crucial: obter o adiamento militar concedido a quem provasse encontrar-se a frequentar um curso superior nos cinco anos posteriores ao ano que perfizera 20 anos.
Os meses em que permaneci em Castelo Branco foram, nestas condições, devastadores para o meu círculo de amigos e de solidariedades pessoais e intelectuais. A distância interrompeu abruptamente relações que não mais foram reatadas, cortou laços e desvaneceu memórias intensas e fortes de camaradagem e partilha.
Em Lisboa, o mês de Agosto de 1971, pareceu-me mais deserto do que nunca. Ocupado em equipar a casa que com L. tinha alugado, não fui sequer às Caldas passar mais do que um fugaz fim de semana. Sem saber se e quando teria colocação, a gestão do pequeno pecúlio amealhado em Castelo Branco impunha uma severa restrição de gastos quotidianos. Voltei às traduções, com a ajuda do António Reis que procurei no Barreiro. Mas, curiosamente, a hipótese do jornalismo que tanto me atraíra um ano antes, nem sequer se colocou. A experiência de Castelo Branco fez-me reconhecer que ensinar era verdadeiramente o que eu queria fazer. Esperaria por isso que as "colocações" me ditassem onde o poderia fazer. Em Setembro, recebi a resposta: teria um horário na Escola Preparatória Manuel da Maia, em Campo de Ourique. Apresentei-me e comecei de imediato a preparar e dar aulas. E uma semana depois, tal como em Dezembro do ano anterior, chegou-me outro horário. Desta vez, no Liceu do Padre António Vieira, em Alvalade.


Avenida que conduz à estação e onde se localiza o antigo Liceu