sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Estava apaixonado. Patrícia Highsmith

Todas as manhãs, Don verificava a sua caixa de correio, mas nunca havia carta dela. [...]
Tinha escrito a Rosalind há treze dias, dizendo que a amava  e que desejava casar com ela. Era talvez ligeiramente precipitado devido à curta duração da corte, mas Don achava que escrevera uma carta sensata, não exercendo pressão, declarando apenas o que sentia. Afinal de contas, tinha conhecido Rosalind durante dois anos, ou melhor, tinha-a encontrado em Nova Iorque, dois anos antes. Vira-a de novo na Europa, no mês anterior, estava apaixonado e desejava desposá-la. [...]
Passaram mais dois dias e continuou a não haver resposta. [...]
Abriu [dois dias mais tarde] a caixa e puxou para fora o envelope longo e frágil, com as mãos trementes, deixando cair as chaves aos pés.
A carta consistia apenas em quinze linhas dactilografadas:
Don:
Lamento muito ter esperado tanto tempo para responder à tua carta, mas as coisas aqui têm surgido umas atrás das outras. Só hoje ficaram suficientemente arrumadas para começar a trabalhar. Antes de mais nada atrasei-me em Roma, e conseguir tratar aqui [em Paris] do apartamento tem sido um inferno por causa das greves dos electricistas e coisas do estilo.
És um amigo, Don, sei-o e não o esquecerei. Também não esquecerei os nossos dias na Côte. Mas, querido, não consigo imaginar-me a mudar a minha vida radical e abruptamente, seja para me casar aqui ou em qualquer outro lugar. Devo poder ir no Natal aos Estados Unidos, as coisas por estes lados estão demasiado activas, e porque havias tu de abandonar Nova Iorque? Talvez por altura do Natal, ou quando receberes esta carta, os teus sentimentos tenham mudado um pouco.
Mas voltarás a escrever-me? E não deixarás que isto te torne infeliz? E podemos ver-nos outra vez um dia? Talvez inesperadamente e de uma maneira tão maravilhosa como em Juan-les-Pins?
Rosalind

Patrícia Highsmith, O Observador de Caracóis e Outros Contos. Lisboa, Teorema, 1987, p. 21-31.

2 comentários:

  1. Sentimentos desencontrados são pródigos em gerar equívocos. Destaco a preocupação de Rosalind em não deixar estragar o que havia (e ainda poderá haver) entre ela e Don, a esperança de que os sentimentos dele tenham "mudado um pouco" durante o tempo em que esperou pela carta e, principalmente a ingenuidade da pergunta: "E não deixarás que isto te torne infeliz?"

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  2. Achei graça a uma notícia que vi passar ontem (domingo, 6 de outubro) em rodapé na TV. Dizia que um estudo efectuado recentemente concluía que as pessoas que leem ficção literária revelam mais compreensão relativamente às emoções dos outros do que quem não lê.

    Lembrei-me, a propósito, de ter pensado e dito em várias ocasiões que estranhava que as pessoas fossem quase sempre a favor dos casos amorosos complicados quando os viam no cinema e contra quando eles aconteciam na vida real.

    Pelos vistos, numa época de filmes, de séries e de telenovelas constantes, parece que a literatura e a leitura têm efeito mais efetivo no desenvolvimento da capacidade de compreensão dos outros e das respetivas emoções. Será por esse meio ser mais adequado à reflexão e à análise mais demorada e profunda das personagens e das situações por elas protagonizadas?

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