sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O fogo funesto produziu um enorme fragor. Viagem de Orfeu

Então, sob as velas, preparei bolos de cevada,
lancei-os na fogueira e ofereci as vítimas aos manes,
pois havia sacrificado três pequenos cães de pêlo negro.
Ao sangue misturei vitríolo, marmelo,
açafrão fendido, tanchagem desagradável ao paladar,
raízes vermelhas e crisântemos. Em seguida,
enchi o ventre dos cães e coloquei-os na fogueira,
reguei com água as entranhas e espalhei-as à volta
da fossa aberta no chão. Vesti uma capa escura
e fiz uma prece, percutindo um bronze odioso.
Elas ouviram de imediato, rompendo
as cavernas do abismo onde não há risos,
Tisífone, Alecto e a divina Megera, projectando
com as suas tochas acesas um clarão de sangue.
A fossa imediatamente ficou iluminada e o fogo funesto
produziu um enorme fragor. Um fumo negro
elevou-se no ar em alto vapor. Imediatamente
do Hades, através do fogo, se ergueram
as tenebrosas Erínias, cruéis, terríveis. A primeira, à qual
os habitantes dos Infernos chamam Pandora,
tinha o corpo de ferro. Com ela vinha
uma criatura de de aspecto variável, com três cabeças,
monstro funesto à vista,
indivisível: Hécate, a filha do Tártaro.
Do seu ombro esquerdo saía
um cavalo de longas crinas; à direita,
estava uma cadela olhando com olhar feroz
e, no meio, apresentava um aspecto selvagem.
Nas duas mãos tinha espadas guarnecidas de guardas.
Aqui e ali, Pandora e Hécate rodavam em círculo
à volta da fossa, e as Vingadoras acompanhavam-nas.

A Viagem de Orfeu. Evocação dos monstros.
Antologia da Poesia Grega Clássica. Tradução e notas complementares de Albano Martins. Lisboa, Portugália Editora, 2009, p. 471-472.

1 comentário:

  1. "(...)' Minha mãe, porque não esperas por mim quando quero/segurar-te, para que até na mansão de Hades nos abracemos/e nos deleitemos à nossa vontade com frígidos lamentos?/Será este um fantasma que me mandou a altiva Perséfone,/para que eu chore e me lamente ainda mais?'//

    Assim falei; e logo respondeu a excelsa minha mãe:/'Ai de mim, ó filho, desgraçado entre todos os homens!/Não é Perséfone, filha de Zeus, que te defrauda:/é a lei que está estabelecida para os mortais, quando morrem./Pois os músculos já não seguram a carne e os ossos,/mas vence-os a força dominadora do fogo ardente,/quando a vida abandona os brancos ossos/e a alma, como um sonho, batendo as asas se evola./Mas tu volta rapidamente para a luz! E mantém presentes/estas coisas, para que depois as possas contar a Penélope.'(...)".

    Homero, ODISSEIA, Canto XI, trad. de Frederico Lourenço, Lisboa, Livros Cotovia, 2003, p. 186.

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